quinta-feira, 16 de abril de 2009

DOR QUE DÓI MAIS

Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, dóem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim. Mas o que mais dói é saudade.
Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do amigo que já morreu. Saudade de um amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, quando se tinha mais audácia e menos idade. Doem essas saudades todas. Como diz Chico, “saudade é como arrumar o quarto de um filho que já morreu”.
Mas a saudade esmagadora é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida. Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você podia ir para o aeroporto e ele para a praia, mas sabiam-se onde. Você podia ficar o dia sem vê-lo, ele o dia sem vê-la, mas sabiam-se amanhã. Mas quando o amor de um acaba, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.
Saudade é não saber. Não saber mais se ele continua tossindo à noite. Não saber mais se ela continua clareando o cabelo. Não saber se ele ainda usa a camisa que você deu. Não saber se ela foi na consulta com o ginecologista como prometeu. Não saber se ele tem comido ovos com gema mole no jantar, se ela tem assistido as aulas do cursinho, se ele aprendeu a usar o controle remoto da Sky, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua fumando Carlton Mint, se ela continua preferindo Coca-Cola, se ele continua esquecido, se ela continua sorrindo, se ele continua dormindo de meias, se ela continua lhe amando.
Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.
Saudade é não querer saber. Não querer saber se ele está com outra, se ela está feliz, se ele está mais careca, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais querer saber de quem se ama, e ainda assim, doer.

3 comentários:

  1. Como pode ser gostar de alguém
    e esse alguém não ser seu??
    (...)

    ResponderExcluir
  2. Que texto bacana.
    Realmente a saudade é a dor que mais dói.
    Saudade da pessoa amada, saudade de saber o que está contecendo com ele, entre tantas outras coisas que despertam nossa saudade.

    Beijos

    ResponderExcluir
  3. Pois é, este texto não é meu... é da Martha Medeiros... mas eu adaptei aqui algumas idéias.. rsrs

    Valeu

    ResponderExcluir